A estreia de um espetáculo de dança inspirado na trajetória de uma das artistas mais emblemáticas de Mato Grosso do Sul promete levar ao palco uma leitura poética sobre liberdade, memória e criação. Em vez de contar a história de forma cronológica, L’Existence – Lídia Baís transforma a vida da pintora campo-grandense em uma experiência sensível, na qual realidade e imaginação se misturam para apresentar diferentes camadas de sua personalidade.
A apresentação acontece no dia 4 de agosto, às 20h, no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande. A montagem parte do universo artístico e da trajetória de Lídia Baís para construir uma narrativa guiada pela linguagem da dança, revelando uma mulher que desafiou convenções e fez da arte sua forma de existir.
A proposta do espetáculo se afasta do formato biográfico tradicional. Em cena, personagens inspirados nas pinturas e na história da artista surgem como fragmentos de uma existência que continua viva por meio de sua produção artística, permitindo que cada espectador construa sua própria interpretação.
A diretora artística e bailarina Ana el Daher, responsável por interpretar Lídia Baís, afirma que o processo de criação modificou completamente a imagem que tinha da pintora.
Antes restrita ao nome presente na história de Campo Grande, Lídia passou a representar, segundo ela, uma mulher de coragem e espírito inovador. “Lídia se tornou para mim uma mulher muito à frente do seu tempo. Ela não aceitava viver dentro das regras impostas pela sociedade, pela família e pelo lugar onde estava. Ela queria muito mais. Foi uma mulher ousada, que foi atrás dos próprios sonhos e das próprias vontades. Hoje, vejo alguém que talvez tenha inspirado muitas outras mulheres na forma de pensar e de agir.”
Construção da personagem
Dar vida à artista apenas por meio da expressão corporal foi um dos maiores desafios da montagem. Sem recorrer à fala, o trabalho exigiu um amplo processo de pesquisa para traduzir sentimentos, conflitos e características da pintora.
Segundo Ana, a construção da personagem teve como base diários, relatos históricos, pinturas e estudos sobre a trajetória de Lídia Baís, além da orientação de uma historiadora especializada em sua obra. “A dança não tem o poder da fala. A gente precisa mostrar tudo com a alma. Pouco se sabe exatamente sobre como Lídia era, então tivemos muito cuidado para construir uma personagem respeitosa e, ao mesmo tempo, sensível. Foi um processo baseado em pesquisas, nos diários, nas pinturas, em relatos e também na orientação de uma historiadora profundamente dedicada ao universo da Lídia.”
Entre os aspectos que mais chamaram sua atenção durante a preparação está a postura da artista diante das imposições sociais de sua época. “O que mais me marcou foi perceber que ela não se rendia às obrigações impostas para ela. Mesmo sabendo das consequências, ela escolhia viver do jeito que acreditava. Em uma época em que isso era quase proibido para uma mulher, ela teve coragem de romper padrões e seguir o próprio caminho.”
A expectativa da bailarina é que o espetáculo provoque reflexões que ultrapassem a história da pintora. “Espero que o público saia curioso para conhecer mais sobre Lídia, mas também sobre si mesmo. Que cada pessoa se pergunte se está vivendo o lugar ao qual realmente pertence. Lídia era inquieta, e gostaria que essa inquietude também permanecesse com quem assistir ao espetáculo.”
Pesquisa inspirou criação coreográfica
A diretora artística e coreógrafa Monique Paes explica que L’Existence nasceu de uma extensa pesquisa sobre a vida e a produção artística de Lídia Baís. O processo envolveu estudos históricos, observação das pinturas, experimentações corporais e uma escuta sensível sobre os sentimentos despertados pela trajetória da artista. “A criação de L’Existence nasceu de um mergulho profundo no universo de Lídia Baís. Estudei sua história, contemplei suas obras, ouvi inúmeras trilhas e, acima de tudo, aprendi a me escutar. Cada escolha coreográfica surgiu desse diálogo entre a pesquisa e aquilo que sua trajetória despertava em mim.”
Monique também integrou a equipe do longa-metragem sobre Lídia Baís, atualmente em produção em Mato Grosso do Sul, experiência que ampliou sua compreensão sobre a artista e influenciou diretamente a criação do espetáculo.
Segundo a coreógrafa, algumas obras da pintora serviram como ponto de partida para desenvolver a linguagem corporal da montagem, mas a intenção nunca foi reproduzir sua biografia. “Algumas de suas pinturas tornaram-se ponto de partida para a linguagem corporal do espetáculo. Em nenhum momento quisemos biografar sua vida. A intenção sempre foi revelar ao público o quanto sua trajetória é rica, cheia de camadas, contrastes e perguntas que continuam ecoando no tempo.”
Ela ressalta ainda que o objetivo é proporcionar uma experiência aberta, em que a emoção anteceda qualquer explicação racional. “Acredito que a arte ganha força quando nos permite sentir antes de compreender. Mais do que contar uma história, buscamos criar uma experiência sensível. Com respeito, admiração e licença poética, apresentamos L’Existence.”
A narrativa parte simbolicamente do último suspiro de Lídia Baís e percorre um caminho onde memória, imaginação e criação se entrelaçam. Personagens inspirados em suas pinturas surgem como fragmentos de uma existência que continua presente, reforçando a permanência da artista por meio de sua obra.
O espetáculo é realizado com recursos do Fundo de Investimentos Culturais (FIC), do Governo de Mato Grosso do Sul.
Serviço
L’Existence – Lídia Baís
- Data: 4 de agosto
- Horário: 20h
- Local: Teatro Glauce Rocha, no campus da UFMS, em Campo Grande
- Ingressos: R$ 70
- Vendas: pela bio do Instagram do Espaço de Dança Selma Azambuja e também na bilheteria do Teatro Glauce Rocha.














