Presidente dos EUA afirma que conversas começam nesta segunda-feira (3), enquanto Teerã nega negociações diretas e mantém restrições no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo
A possibilidade de uma retomada do diálogo entre Estados Unidos e Irã reduziu a pressão sobre o mercado internacional de petróleo nesta segunda-feira (3). Depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar que desistiu de um ataque militar de grandes proporções contra o território iraniano e que pretende iniciar negociações com Teerã, as cotações da commodity registraram forte queda nas primeiras horas do dia.
Durante viagem a bordo do Air Force One, na noite de domingo (2), Trump afirmou que as conversas com o governo iraniano devem começar ainda nesta segunda-feira. Segundo ele, o Irã tinha conhecimento da dimensão da ofensiva que estava sendo planejada pelos Estados Unidos, mas aliados da região, entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, pediram que a operação fosse cancelada.
“Agora, o que estamos fazendo é conversar com eles por meio de uma negociação. Ela começa amanhã à tarde, e veremos”, declarou o presidente norte-americano.
O governo iraniano, no entanto, apresentou uma versão diferente. A imprensa estatal negou que Teerã tenha solicitado a suspensão do ataque, enquanto o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, afirmou nesta segunda-feira que não há negociações em andamento entre os dois países.
Segundo Baghaei, o Irã mantém apenas conversas com Omã para discutir uma rota marítima temporária alternativa ao Estreito de Ormuz, mas ressaltou que esse entendimento não representa a reabertura da passagem estratégica.
Diplomacia intensificada
Em meio ao aumento da tensão regional, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, realizou uma série de contatos diplomáticos nas últimas 24 horas. Conforme a emissora estatal Press TV, ele conversou por telefone com o chanceler da Arábia Saudita, príncipe Faisal bin Farhan Al Saud, e com o comandante do Exército do Paquistão, Asim Munir.
As conversas trataram da segurança regional e dos desdobramentos do conflito. No dia anterior, Araghchi já havia alertado autoridades sauditas de que qualquer ação militar dos Estados Unidos ou de Israel receberia uma resposta considerada “firme e proporcional” por Teerã.
Também no domingo, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman conversou com Donald Trump. De acordo com a agência oficial de notícias da Arábia Saudita, o líder saudita defendeu esforços para reduzir a escalada militar. Fontes ouvidas pela CNN informaram que ele manifestou preocupação com um possível ataque norte-americano ao Irã.
Petróleo recua
A sinalização de um possível caminho diplomático foi suficiente para aliviar parte das preocupações dos investidores.
O petróleo Brent, referência internacional, registrou queda de cerca de 5,6%, sendo negociado próximo de US$ 83 por barril. Já o WTI, principal referência nos Estados Unidos, recuava aproximadamente 5,5%, para perto de US$ 80 por barril.
Apesar da reação positiva do mercado, analistas avaliam que a instabilidade permanece elevada devido às restrições na principal rota de exportação de petróleo da região.
Estreito de Ormuz continua restrito
O Estreito de Ormuz permanece com a navegação severamente limitada desde a retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã, em 8 de julho, semanas após um breve cessar-fogo entre os dois países.
Antes do conflito, cerca de 20 milhões de barris de petróleo cruzavam diariamente a hidrovia, considerada uma das mais importantes do planeta para o abastecimento energético mundial. Durante a trégua, o fluxo chegou a recuperar parte do volume, com aproximadamente 200 milhões de barris escoados no período.
Mesmo após Trump anunciar o cancelamento da ofensiva militar, o governo iraniano deixou claro que não pretende reabrir o estreito neste momento. Baghaei afirmou que qualquer entendimento com Omã não altera a situação enquanto persistirem, segundo ele, as ações consideradas agressivas dos Estados Unidos.
Navios que tentaram utilizar rotas alternativas próximas ao litoral de Omã receberam advertências das autoridades iranianas, reforçando o controle exercido por Teerã sobre a região.
Tráfego reduzido e preocupação da Opep
Dados da plataforma MarineTraffic indicam que apenas cinco embarcações cruzaram o Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas. No Estreito de Bab el-Mandeb, outra importante rota marítima utilizada para o transporte de petróleo, foram registradas 34 passagens de navios, número ainda inferior ao observado antes da guerra.
A Arábia Saudita tem ampliado o uso dessa alternativa para escoar petróleo, embora o corredor também enfrente riscos devido aos ataques promovidos por rebeldes houthis do Iêmen, grupo apoiado pelo Irã.
No domingo, o Comitê Ministerial Conjunto de Monitoramento da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) demonstrou preocupação com os impactos do conflito sobre o mercado energético. O grupo alertou que ataques contra instalações de energia exigem reparos complexos e que interrupções nas principais rotas marítimas aumentam a volatilidade dos preços.
Reflexos na economia
Nos Estados Unidos, o prolongamento da crise elevou o preço dos combustíveis. Segundo a associação AAA, o galão de gasolina era vendido, em média, por US$ 4,09 no domingo, valor ligeiramente inferior ao da semana passada, mas ainda cerca de 34% acima do registrado antes do início da guerra.
Ao mesmo tempo, o mercado financeiro reagiu positivamente à expectativa de redução das tensões. Os contratos futuros das bolsas norte-americanas operavam em alta no início desta segunda-feira, com avanço de aproximadamente 0,5% para os índices Dow Jones e S&P 500, enquanto o Nasdaq registrava valorização próxima de 0,8%.
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